terça-feira, 5 de julho de 2011

o amor é cego...



Contam que uma vez se reuniram todos os sentimentos e qualidades dos homens em um lugar da terra. Quando o aborrecimento havia reclamado pela terceira vez, a loucura, como sempre tão louca, lhes propôs: “Vamos brincar de esconde-esconde?” A intriga levantou a sobrancelha intrigada e a curiosidade sem poder conter-se perguntou: “Esconde-esconde? Como é isso?” “É um jogo, explicou a loucura, em que eu fecho os olhos e começo a contar de um a um milhão enquanto vocês se escondem e, quando eu tiver terminado de contar, o primeiro de vocês que eu encontrar, ocupará meu lugar para continuar o jogo”. O entusiasmo dançou seguido pela euforia. A alegria deu tantos saltos que acabou por convencer a dúvida, e até mesmo a apatia, que nunca se interessavam por nada. Mas nem todos quiseram participar. A verdade preferiu não se esconder. "Para que, se no final todos me encontram?” A soberba opinou que era um jogo muito tonto. No fundo o que a incomodava era que a idéia não tivesse sido dela.  A covardia preferiu não se arriscar. “Um, dois, três, quatro... “ começou a contar a loucura. A primeira a esconder-se foi a pressa, que como sempre caiu atrás da primeira pedra do caminho. A fé subiu ao céu e a inveja se escondeu atrás da sombra do triunfo que, com seu próprio esforço, tinha conseguido subir na copa da árvore mais alta. A generosidade quase não consegue esconder-se, pois cada local que encontrava, lhe parecia maravilhoso para algum de seus amigos. Se era um lago cristalino, ideal para a beleza. Se era a copa de uma árvore, perfeito para a timidez. Se era o vôo de uma borboleta, o melhor para a volúpia. Se fosse uma rajada de vento, magnífico para a liberdade. E assim acabou escondendo-se em um raio de sol. O egoísmo, ao contrário, encontrou um local muito bom desde o início. Ventilado, cômodo, mas apenas para ele. A mentira escondeu-se no fundo do oceano , na realidade, escondeu-se atrás do arco-íris. E a paixão e o desejo,no centro dos vulcões. O esquecimento, não recordo-me onde se escondeu, mas isso não é o mais importante. Quando a loucura estava lá pelo 999.999, o amor ainda não havia encontrado um local para esconder-se, pois todos já estavam ocupados, até que encontrou uma roseira e, carinhosamente, decidiu esconder-se entre suas flores. A primeira a aparecer foi a pressa, apenas a três passos de uma pedra. Depois, escutou-se a fé discutindo com Deus, no céu, sobre zoologia. Sentiu-se vibrar a paixão e o desejo nos vulcões. Em um descuido, a loucura encontrou a inveja e claro, pôde deduzir onde estava o triunfo. O egoísmo não tiveram nem que procurá-lo: ele sozinho saiu disparado de seu esconderijo que, na verdade, era um ninho de vespas. De tanto caminhar, a loucura sentiu sede e, ao aproximar-se de um lago, descobriu a beleza. A dúvida foi mais fácil ainda, pois a encontraram sentada sobre uma cerca sem decidir de que lado esconder-se. E assim foram encontrando a todos. O talento entre a erva fresca, a angústia em uma cova escura, a mentira atrás do arco-íris, ou melhor, estava no fundo do oceano e até o esquecimento, que já havia se esquecido que estava brincando de esconde-esconde. Apenas o amor não aparecia em nenhum local. A loucura o procurou atrás de cada árvore, embaixo de cada rocha do planeta e em cima das montanhas. Quando estava a ponto de dar-se por vencida, encontrou um roseiral. Pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando, no mesmo instante, escutou-se um doloroso grito. Os espinhos tinham ferido o amor nos olhos. A loucura não sabia o que fazer para desculpar-se. Chorou, rezou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser seu guia. Desde então, desde que, pela primeira vez, se brincou de esconde-esconde na terra, o amor é cego e a loucura sempre o acompanha.


Beijos, Larissa Sobral.

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